Capítulo 1
Do alto daquela ponte, olhei para o céu e disse:
“Confia em mim. Sou digno desta missão. Tocarei corações e levarei adiante o recado de vocês. Serei o mensageiro das verdades escondidas no peito daqueles que sofrem e procuram um afago nas palavras — um tradutor de sentimentos.”
Nesse momento, arrepiei-me por completo, dos pés à cabeça. Alguém, provavelmente, ouvira-me — e acredito que foram as pessoas certas. Tive a certeza de que receberia uma resposta positiva ao meu desejo, só não sabia que demoraria tanto.
A primeira pessoa a quem contei o meu sonho foi a Valentina — não poderia ser de outra forma. Ela é a inspiração das minhas linhas mais bonitas.
Cheguei a pensar que me tinha achado tolo por sonhar tão alto, mas essa dúvida dissipou-se quando, algum tempo depois, me ofereceu um livro de poesias que encontrara num alfarrabista qualquer.
Ao abri-lo, a surpresa: na primeira página, escrevera:
“Assim como te ofereço este livro repleto de belos poemas, espero que, um dia, alguém folheie um escrito por ti numa livraria e o compre a pensar na pessoa que ama.
Com todo o meu carinho,
Valentina.
27/12/2019”
Naquele instante, tive a certeza de que me tornaria escritor. E ela, sem o saber, fez com que ficasse ainda mais determinado a conquistar esse sonho.
Porto Alegre, 3 de março de 2020
Hoje percebo que pessoas feridas tendem a ferir outras.
A angústia, o medo e a ansiedade tornam-nos mais suscetíveis a sermos, por momentos, desprezíveis — magoando injustamente quem nada tem a ver com os nossos sentimentos. É, ainda que de forma inconsciente, uma maneira de nos castigarmos, projectando no outro o peso das nossas próprias frustrações. Levo este aprendizado comigo para a vida…
Sim, muitas vezes fui magoado por pessoas presas nesse turbilhão de emoções ruins. Mas nada me entristece mais do que reconhecer que, tantas outras vezes, fui eu quem feriu quem amava.
Tudo bem — ninguém tem culpa nisso.
Perdoar e ser perdoado faz parte do processo de evolução. Uma das coisas que a Valentina me ensinou foi que devemos ser, para os outros, aquilo que desejamos que eles sejam para nós.
Se somos magoados, ainda que exija um autocontrolo enorme, não serve de nada retribuir na mesma moeda. Só temos controlo sobre nós próprios — e a obrigação de ser uma boa pessoa é nossa, não do outro.
Andei pelos oito cantos da cidade.
Conheci pessoas de todos os tipos.
Vi senhores a pedir mais tempo.
Vi jovens que não queriam estar vivos.
Conversei com raparigas que adoravam os seus livros
e com outras que odiavam rapazes.
Vi rapazes que diziam disparates
e outros que já tinham vivido uma vida inteira.
Foram tantas histórias e tantas desavenças,
que fiz poesia sobre todas essas pessoas.
Alguns versos ficaram vazios,
nem todos foram bons —
mas não me refiro às poesias.
Porto Alegre, 9 de março de 2020
Dois anos atrás, eu estava no fundo do poço.
Na minha mesa, havia uma colecção de garrafas vazias; no peito, uma inquietação incompreendida — uma vontade de fazer tudo, mas sem saber por onde começar.
Sentia-me perdido. Achava que os meus amigos não eram verdadeiros, que os meus relacionamentos eram fracassos e que o meu potencial estava a ser desperdiçado.
Demorei a encontrar-me.
Tive de procurar o meu verdadeiro eu. Parti-me em pedaços até conseguir colar-me de novo e começar a tornar-me na pessoa que queria ser.
Na vida real, dizemos: sinto-me sozinho.
Mas, em poesia, dizemos:
Ninguém ouviu quando chorei,
ainda bem,
eu não queria que soubessem,
não queria que me ouvissem.
Eu sabia que não estava sozinho,
mas sentia-me só,
como se, depois de tanto caminhar,
continuasse perdido.Parecia muito, mas era pouco.
Eu era muito, mas sentia pouco.
E sentia-me pouco por não entender
por que, para ser feliz,
ainda precisava dos outros.
Porto Alegre, 15 de março de 2020
Achava normal mentir e esconder coisas das pessoas à minha volta. Fazia o que acreditava ser necessário para agradar ao meu ego — e, muitas vezes, parti a cara e magoei muita gente por isso.
Lembro-me de um dia, antes de começarmos a namorar, em que perguntei à Valentina se havia alguma hipótese de termos algo.
Ela, sem hesitar, respondeu que não.
Assim como ela não era o meu tipo ideal, eu também não era o dela. Sempre teve um olhar atento sobre os outros. Em mim, via apenas alguém preocupado em sair com várias raparigas, sem se importar com nada.
Não acreditava que eu pudesse ser alguém com quem teria um bom relacionamento. E não a posso culpar: era essa a imagem que eu transmitia.
Se nem eu compreendia as razões das minhas atitudes, como é que ela poderia compreender? E, mais ainda, como entregaria a sua confiança a alguém com tantos conflitos?
Nesse dia, senti vergonha.
Ao longo da vida, aprendi a evitar a verdade — a varrer para debaixo do tapete tudo o que eu era, tudo o que sentia, tudo o que queria.
Ninguém percebia, nem se importava o suficiente, para me dizer que as minhas atitudes afectavam os outros… e também a mim.
Não te vou mentir — senti raiva.
Quem pensava ela que era, para me dizer aquelas coisas assim, como quem fala do tempo numa tarde de domingo?
Mas o que mais me irritava era que ela tinha razão.
Fazia sentido o que me dissera — e fazia sentido ela não me querer por isso.
Só que ela conhecia de mim apenas o lado que eu deixava os outros verem.
Via apenas alguém que não sentia, que não se importava com nada nem com ninguém.
Eu sabia que tinha os meus defeitos, mas também sabia que era, sim, uma boa pessoa.
Só precisava que ela conhecesse esse meu lado que, até então, eu nunca deixara ninguém ver.