Onde Renasce o Amor

Capítulo 1

INTRODUÇÃO

 

Era 27 de fevereiro. Cinco meses tinham se passado desde o fim.

Na noite anterior, ele a encontrou em uma festa no centro da cidade. A indiferença dela o atingiu de forma inesperada, como se cada gesto fosse capaz de fragmentá-lo por dentro.

Enquanto bebia, sentiu o passado e o presente escorrerem garganta abaixo, queimando em silêncio. O líquido tinha o sabor do futuro que imaginara com ela.

A certeza que o dominava era simples: tinha sido ele quem arruinara tudo. Fizera, consciente ou não, o necessário para perder o amor da própria vida.

Perguntava-se por que repetia sempre os mesmos erros. Mais uma vez, deixara-se enganar pelo desejo de possuir e pelo tédio que surge depois da conquista. Acreditara ter amadurecido, superado essa fraqueza. Mas estava errado, mais uma vez.

Desde a última vez em que refletira sobre a própria vida, muita coisa havia mudado. Ainda assim, o vazio permanecia. Como ele e Valentina tinham chegado àquele ponto?

Para compreender, precisava recordar um ano no passado.

Talvez, pensava ele, estivesse vivendo aquilo que o profeta Jeremias já advertia: “O coração humano é mais enganoso que qualquer coisa e é extremamente perverso; quem sabe, de fato, o quanto é mau?”¹.

 

¹ Jeremias 17:9




8 meses antes do fim

 

Diego sonhava em ser escritor, para honrar os ensinamentos da sua melhor amiga que faleceu precocemente. Certo dia, retornou à ponte onde costumava brincar com ela na infância. Do alto da ponte, ele ergueu os olhos para o céu e falou em silêncio, como quem faz um voto: confiava que era digno daquela missão. Acreditava ter sido chamado para tocar corações, para dar voz às dores caladas, para traduzir sentimentos que não encontravam forma. Queria ser mensageiro de verdades que habitam o peito dos que sofrem e procuram abrigo nas palavras.

Um arrepio o percorreu por inteiro. Sentiu uma convicção extrema. A resposta viria, pensava. Apenas não imaginava que a espera seria tão longa.

Como tantas vezes acontece com os chamados verdadeiros, a promessa vinha antes do cumprimento.

A primeira pessoa a quem contou sobre aquele sonho foi Valentina. Não poderia ter sido diferente. Ela era a fonte de inspiração das suas palavras mais bonitas.

Chegou a temer que ela o considerasse ingênuo por alimentar um desejo tão inatingível. 

Essa dúvida, porém, se desfez algum tempo depois, quando Valentina lhe entregou um livro de poesias encontrado em um sebo. Ao abri-lo, encontrou algo que não esperava. Na página inicial, havia uma dedicatória escrita por ela:

Naquele momento, ele teve certeza de que se tornaria escritor. E, sem saber, Valentina havia feito mais do que incentivar um sonho: havia confirmado um chamado. 






7 meses antes do fim

 

Com o tempo, ele passou a enxergar algo que antes ignorava: pessoas feridas tendem a ferir. 

A angústia, o medo e a ansiedade fragilizam. Tornam o ser humano mais impulsivo, mais duro, mais propenso a machucar quem não tem relação direta com a própria dor. Muitas vezes, esse comportamento é apenas uma tentativa inconsciente de aliviar o peso das frustrações internas, transferindo para o outro aquilo que não se consegue suportar sozinho.

Ele decidiu levar esse aprendizado para a vida. 

Sabia que já havia sido machucado por pessoas presas nesse turbilhão emocional. Ainda assim, nada lhe causava mais incômodo do que reconhecer que, em muitos momentos, fora ele quem ferira aqueles que amava.

Entendeu, então, que perdoar e ser perdoado não é fraqueza, mas parte do crescimento. Um processo necessário para quem deseja amadurecer de verdade.

Valentina lhe ensinou uma lição simples e profunda: ser para os outros aquilo que se espera deles. Retribuir dor com dor não cura nada. A responsabilidade de agir com bondade é pessoal, nunca do outro.

Amar, afinal, também é escolher não repetir o ciclo.